Crónica: Baloiço Baloiçando Sozinho...
Lembro-me quando passeava pelo jardim de Benfica sempre no começo de um fim de tarde gélido, em pleno Inverno, mais a minha empregada, aquela que sempre me criou, aquela que me levava a passear e me mostrava os seus ‘pequenos segredos’ escondidos pelos desmedidos e cerrados arbustos do jardim.
Mal sabia eu falar e já entoava o “Parabéns a você”. Vivia com contentamento, sempre agarrado àquela mão cheia de vida, cheia de experiência sentida pela minha empregada. Notava-se que passou por muito, que viveu momentos bastante aflitivos e que, mesmo assim, em seu rosto morava um sorriso saliente aos olhos de uma criança. - Mas que encanto de rapaz – expressavam as pessoas que passavam por mim no jardim. Eu, com o típico olhar ingénuo, observava tudo o que estava á minha volta: os pardais que saltitavam pelo cascalho húmido, a brisa que cessava por entre as árvores, as gotas de orvalho que permaneciam invioladas nas plantas descaídas, os velhotes que se juntavam para jogar às cartas e o baloiço que eu usava sempre quando lá ia. Ah que belo baloiço era aquele! Recordo-me perfeitamente da textura da madeira humedecida, das correntes onde eu fixava as minhas mãos, do impulso dado pela minha empregada e do vento que me resfriava o rosto. Cada impulso que sentia era como que todas as emoções da vida me passassem pelo corpo; aquela sensação na barriga… Que maravilha!
Eu não era nada mais nada menos que um miúdo alegre com uma vontade enorme de viver e com um desejo infinito de tocar o limite do mundo. Tinha um olhar muito profundo sobre tudo aquilo que me passasse á frente. Raramente, nada me escapava. Os mais acanhados e distintos pormenores do jardim, das pessoas, da vida que para ali havia foram aspectos que marcaram a minha maneira de ser, a minha maneira de estar e a minha perspectiva do mundo á minha volta.
Aquele jardim dava-me um sentido de “pertença” e inundava-me o espírito de felicidade cada vez que lhe sentia o seu cheiro. A minha sorte é que aquele lugar era um lugar perto da minha casa, o que facilitava no que diz respeito ao deslocamento. Em vários momentos, pensei que pudesse vir a perder toda aquela felicidade, principalmente quando mudei de casa. Vim morar para o centro da cidade. Barulho, falta de privacidade, falta de um bom jardim, enfim, falta de um baloiço. Dona Faustina (era este o seu nome), era muito mais do que uma empregada. Ela e o jardim foram construindo, aos poucos, a minha alegria e o meu gosto pelas coisas boas da vida.
As memórias que tenho dessa altura ainda hoje perduram. O baloiço, que fazia parte da minha maneira de ser, lá continua, baloiçando sozinho. Pobre baloiço, abandonado no jardim. Este foi o meu espírito durante uns belos anos. Sinto uma forte nostalgia de infância, com autênticos nós na garganta, com vontade de recuar no tempo e de puder viver tudo outra vez. É espantoso como tudo naquela altura era precioso e como essa preciosidade ainda permanece na minha memória. A verdade é dura. E essa verdade é a realidade de que vou crescendo e crescendo, e que a vida vai colocando vários obstáculos á minha frente, desafiando-me a ter a coragem de olhar para trás e ver o baloiço sempre disponível e lutar por tudo aquilo em que acredito nunca deixando de sentir o vento nos meus olhos e a alegria de baloiçar… GC
sexta-feira, 26 de junho de 2009
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