Aquilo está cada vez pior, isto segundo a mais conhecida opinião pública, é "esta merda". Se pensarmos bem é raro ouvirmos uma conversa que não contenha a tal proposição "Esta merda está cada vez pior".
Afinal, que merda vem a ser esta? É, pelos vistos, uma merda que que está cada vez pior. Deve ser, com certeza, o agravamento de uma merda que já esteve melhor. Embora não possa haver, obviamente, merdas que estejam sempre melhores, pode concluir-se ser sempre melhor a merda que se tem hoje, do que a merda que vai haver amanhã, a qual irá ser, segundo este raciocínio de merda, ainda pior.
A frequente pergunta -"Como é que vai essa merda?"- não é uma pergunta no verdadeiro sentido do termo. Trata-se de uma inconsciente vontade de obter a famosa resposta do "está cada vez pior". As pessoas sofrem, de facto, com esta merda.
Antigamente, esta merda não ia estando, como agora, cada vez pior. O normal era aquela merda estar "cada vez mais na mesma". Qual era o ordinário que não gostava de dizer que "as moscas mudam mas a merda é a mesma"? Bons tempos, afinal, esses em que a merda nao piorava, ficava apenas na mesma!
Agora já se diz "esta merda está tão má que até as moscas se foram embora!" Imagina-as a conspirar entre si "Ó pá, esta merda está impossível!" Fugiram, quem sabe, à procura de outras merdas.
O que é uma merda para os Portugueses? TUDO. Basta dizer em público "É tudo uma merda" para ver abanar, com extraordinário sincronismo, todas as cabeças presentes.
Só em Portugal é que as coisas, para além de serem e estarem uma merda, podem também dar merda. "Dar merda" é o processo através do qual as coisas que ainda não são uma merda vêm a garantir a sua eventual transformação em merda. " Não faças isso que dá merda" ou "Não vale a pena fazer seja o q fôr, porque dá sempre merda" é uma merda que diz muito acerca da forma que têm os Portugueses de estar na vida. Quem, senão um português, consegue, por exemplo, estar deliciado a ouvir Beethoven e dizer, convicto, "Ó pá..eu adoro esta merda!" ?
Gonçalo M.R.
(adaptação a um texto de Miguel Esteves Cardoso)
Sem comentários:
Enviar um comentário