sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Desconversas

Ninguém sabe como nem quando a Humanidade começou a conversar. Há várias teorias, mas a maioria delas é só conversa.
Mas nós Portugueses temos um grande motivo para nos sentir-mos orgulhosos e prestigiados mundialmente. Foi aqui neste pedaço de terra que alguém, algures e em tempo desconhecido começou a desconversar e a partir daí a epidemia da desconversa instalou-se e para ficar, muito provavelmente, eternamente.
Mas para os Portugueses nunca nada está bem e de modo a não perder o estatuto, toca de levar a coisa mais longe e inventar o desmentir.
Por exemplo....um policia reboca-nos o carro e nós dizemos logo: "Oh Senhor Guarda desculpe, mas não se importava de me devolver o carro, tenho pressa, tenho uma tia a morrer no hospital e uma explicação de biologia às cinco e meia." O Guarda puxa do bloco e diz como se tivesse as palavras na ponta da língua: "Documentos...." Entretanto o senhor procura nos bolsos mas nada de documentos, apenas um talão da lavandaria e um plástico com dois "calhaus" de haxixe: "Deixei-os em casa, Senhor Guarda, a minha mulher teve de ir à Caixa levantar a minha pensão de invalidez e eu...pois...olhe...veja lá....pois não os trouxe não." O Guarda dá um grunhido na direcção do reboque, grave e curto, como o som de um javali a fazer testes para um spot de pastilhas veterinárias contra a rouquidão. Isto significa, no código secreto entre policias e reboques, "Anda lá com essa merda...."
O carro começa a andar e o senhor, com o nervoso insiste: "Esse carro é meu pá. Quer que eu lhe diga o que é que está no porta-luvas?" O Guarda não demora a responder: "Sem os documentos comprovativos da propriedade da viatura, a mesma é considerada de propriedade incomprovável, pelo que deverá dar entrada no parque da Polícia Municipal de Alpalhão, até comparecer o propietário do veiculo, devidamente munido dos documentos."
Se o homem disser " estou-lhe a dizer que é meu", o Guarda nem dá tempo para mais nada e abrindo os olhos, enchendo o peito e ajeitando a boina diz: "O senhor, por acaso, está-me a desmentir?" E aí entra a famosa desconversa:" Oh Senhor Guarda....desculpe perguntar, mas o senhor não é aquele homem alto que aparece a fazer surf naquele anuncio da coca-cola?"
Desconversando e desmentindo, os Portugueses falam entre si como se estivessem condenados à trágica companhia uns dos outros e perdeu-se, entretanto, a arte de conversar.
A ideia de duas pessoas numa sala de estar, sem música e sem vídeo, a trocar ideias e opiniões acerca de assuntos interessantes, sem copos e cambalhotas, é mais que suficiente para pôr qualquer adolescente a vomitar.


Gonçalo Moreira Rato
(Adaptação de um texto de Miguel Esteves Cardoso)

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